Capítulo 1
A Mulher do Norte
Em Tete, a poeira amarela cobre tudo: as casas de chapa, os caminhos, as nuvens. A Rami senta-se à porta da cozinha. Espera o marido que não chega.
A noite cai depressa quando ele não está. As crianças dormem cedo. Ela acende a vela. Conta as moedas no canto do lenço, calcula o que falta para a semana, ri sozinha — porque chorar não muda nada.
O Tony tem outra mulher. Ela já desconfiou. Hoje sabe. A vizinha viu-os no mercado, ele a comprar pano para a outra. A vizinha contou. Não com maldade — com pena.
"Mana Rami, eu disse-te," falou a Maria. "Os homens daqui não são como os do sul. Aqui, um homem com dinheiro tem muitas casas. É costume."
"Costume," repete a Rami. A palavra dói porque tem razão. A poligamia é um vento do norte. Veio com os árabes que invadiram esta costa. As mulheres do sul não a conheciam — aprenderam-na com a guerra, quando os homens ficaram raros.
A Rami fecha os olhos. Pensa na sua mãe, lá longe, em Maputo. A mãe diria: "Volta para casa, filha." Mas voltar é admitir derrota, e a Rami não admite derrota. Não ainda.
— · —
Na manhã seguinte, a Rami foi ao mercado. Comprou o mesmo pano que a outra tinha comprado. Trouxe-o para casa. Estendeu-o na cama do quarto principal. Quando o Tony chegou, fingiu não ver a sua surpresa.
"Compraste pano," disse ele. "É bonito."
"É," respondeu ela. "Igual ao da outra."